“A maioria dos homens contenta-se em observar o curso natural das coisas e a verificar-lhe a existência. Para alguns, no entanto, esta explicação não basta. Não é suficiente verificar que as coisas se passam desta ou daquela forma, eles querem saber por que razão elas se passam assim. Esta, a primeira distinção entre o saber vulgar e o conhecimento científico. No primeiro caso limitamo-nos a observar, no segundo procuramos explicar. Ora explicar é procurar a razão de ser, isto é, descobrir a causa que provocou o fenómeno.” (Antonino J. de Sousa). Nos tempos que correm louva-se a ciência como um Deus, acredita-se que a ciência tudo resolve, mas onde ela mais faz falta é quase inexistente. A ciência das máquinas, a tecnologia, está muito activa e sofisticada, contudo, a ciência do homem, a ética, cada vez mais deplorável e vergonhosa.
A sociedade moderna em que estamos mergulhados organiza-se em torno do número; o maior número tem sempre razão e é quem mais ordena, o maior número decide o que é verdade e o que é mentira, mas, como a opinião do maior número representa o saber vulgar, o senso comum, o conhecimento que deriva apenas da observação dos factos isolados, a verdade não emerge, os motivos que originam os fenómenos, assim como os fins que convêm jamais poderão ser encontrados e explicados.
Como exemplo simples do que se pretende demonstrar, observamos que todas as pessoas dão palpites sobre a crise, todos manifestamente revelam a sua indignação, todos querem exigir isto e aquilo, todos se preocupam muito com as notícias adversas que a imprensa divulga, todos observam os factos que lhes aparecem aos sentidos e opinam; no entanto, poucos perguntam, reflectem e estudam: “porque nos endividámos tanto?”; “quem são os responsáveis da crise?”; “porque há crise?”; “como sair da crise?”; “porque não se pode questionar o liberalismo?”; “porque somos obrigados a ser socialistas?”
Os poucos que conhecem as verdadeiras respostas destas questões não têm voz livre na sociedade, são uma minoria sem direitos, são indesejáveis e repelidos do útero social. Ao invés, muitos são os que se equivocam com estas pertinentes questões e, descontraídos, animados e contagiados pelos frutos da demótica ignorância e depravação social, toleram e publicitam os erros em que repousam.
Assim, neste campo, o conhecimento vulgar sobrepõe-se ao conhecimento científico, as verdades não podem ser reveladas, é obrigatório conservar o logro. Para agravar o problema da ignorância, a lavagem cerebral é constante, as mensagens que se inculcam na cabeça das massas são aquelas que os filósofos rebeldes ao serviço dos plutocratas internacionais engendram e, logo, os indivíduos constroem imagens sobre o mundo desajustadas à realidade. Tudo é calculado ao milímetro, tudo é cautelosamente controlado, nada acontece por acaso na arte de governar, mas a ditadura do vulgo manipulado impede que as soluções para a trama política se evidenciem.
1 comentários:
O saber vulgar, o conhecimento científico e o poder são uma trilogia importante para o domínio do mundo, caro NC. Temos o mundo que temos por via dessas coisas. Se a verdadeira ciência viesse ao de cima destruiria todo o edifício do poder, porque o paradigma seria alterado. Se o saber vulgar deixasse de ser vulgar para passar a ser universal e empírico deixaria de haver exploração do homem pelo homem. É aqui que é preciso entendimento para se poder mudar algo, caro Nc, cumprimentos.
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