
A despoluição cultural decididamente começou, demos graças a Deus. Uma amostra da história desmarxizada é o que Dominique Venner tem como jóia no topo da coroa para oferecer aos europeus. Depois de tantos anos de facciosismo, de falta de rigor e mesmo de pura sacanice em relação à apresentação dos factos, o leitor até estranha, mas sentindo paralelamente a alegria da nova atmosfera que prima pela imparcialidade e pelo não servilismo a seitas políticas e ideológicas tão na moda. O nosso destino, o destino dos povos europeus, segundo o autor, e bem, ficou tragicamente traçado com o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Três Impérios Europeus (Império alemão, Império austro-húngaro, Império russo), alicerçados em valores milenares, foram arrasados. Perdeu a Europa, viriam a ganhar os novos senhores do mundo situados no bloco comunista de domínio russo e no território norte-americano sob o democratismo.
O aniquilamento da Nobreza em França com o triunfo do Absolutismo é apontado como factor decisivo para que a Burguesia em conjunto com gentes de carácter duvidoso provocasse a onda de terror em 1789 e subvertesse toda a ordem instituída. A Nobreza, que segurava na sociedade os valores de Dever, de Honra e de Lealdade, ao desaparecer arrastou consigo a perda da harmonia social. Com a destruição dos Impérios que zelavam pela ordem antiga, após a catástrofe que se inicia em 1914, vence mas não convence os ideais revolucionários herdados da Revolução Francesa. E na tentativa de resgatar os valores perdidos numa Europa cada vez mais decadente se precipita a Segunda Guerra Mundial. O resultado é conhecido, as tragédias daí decorridas afogaram a Europa numa crise de uma amplitude enorme, desde a crise de valores até à crise económica.
Ainda como mentalidades diferentes são apontadas as religiões derivadas da Reforma: o calvinismo revolucionário em Inglaterra e o pietismo luterano na Prússia. O primeiro originou homens exteriormente livres interpretando a Bíblia como bem entendem e o segundo homens que desprezam as riquezas, o luxo, o conforto e o prazer mas valorizam o trabalho.
Dominique Venner tem a aqui a virtude de nos relatar a história juntamente com o suporte filosófico que está por detrás das ideias em confronto. Os principais filósofos revolucionários e contra-revolucionários são enumerados sem constrangimentos. Esta obra é pois uma verdadeira pérola para os pensadores livres e para quem gosta de ir ao fundo das questões. Afinal talvez tenha chegado o fim da ditadura de pensamento com base em manipulações cinematográficas e fotográficas. A verdade está longe das fotografias e filmes usados e descaradamente abusados. As ilusões e fantasias poderão ter fortes adversários, esta é mais uma obra que nos dá uma grandíssima esperança.
Depois dos nacionalistas espanhóis pagarem com o seu sangue o bloqueio da cruzada estalinista na península ibérica protegendo a Igreja, salvando-a da fúria revolucionária, veja-se a recompensa: “A aliança franquista entre o sabre e o altar romper-se-á bruscamente na sequência do Concílio Vaticano II (1962-1965). De um dia para o outro, apesar de algumas resistências marginais, a Igreja de Espanha, como em toda a parte, inverte a marcha e toma a senda da adesão à ideologia dos direitos do homem, já preparada pelas equipas da Opus Dei, muito influentes desde 1957. Acabaram-se a “cruzada” contra o comunismo, a exaltação da pátria, da ordem e da autoridade. Chegou a vez de uma fraseologia humanitarista em sintonia com a redenção cristã dos pobres e dos desprotegidos. Do velho arsenal reaccionário só subsistirá a rejeição da contracepção, um fraco estandarte, como toda a gente admitirá, para assegurar a perenidade da causa nacional. […] a edição espanhola, que continuava submetida à censura eclesiástica, será autorizada a publicar os clássicos do marxismo e os principais autores de esquerda, Marcuse ou Reich, enquanto Nietzsche, Spengler ou Heidegger permaneceram sempre rigorosamente proibidos.” (Dominique Venner, O Século de 1914, pág. 354).
O terror comunista não passa impune, a justiça está a chegar, finalmente as verdades emergem, é que já alguém dizia “não é possível enganar a todos durante todo o tempo”, e é verdade, esta obra confirma-o. Após mais de 60 anos na obscuridade, com este audacioso historiador francês “abandona-se o domínio da propaganda para se entrar no do conhecimento histórico”. Parece um sonho, imperdível!
Dominique Venner, O Século de 1914. Utopias, Guerras e Revoluções na Europa do Século XX, Civilização Editora, Porto, 2009.