Communismus cum intrinsecus sit pravus
Pio XI, AAS, t.XXXI, p.96.
O que constitui a base filosófica do marxismo é o materialismo dialético...
materialismo absolutamente ateu,resolutamente hostil a toda religião.
Lenine, Obras, t. XV, p. 371.
Para a maioria de seus adversários, o comunismo é conhecido e combatido sobretudo como o inimigo mortal das liberdades políticas e democráticas. Outros, que procuram aprofundá-lo, consideram nele uma doutrina social e um sistema de economia política que tem no seu ativo um certo número de realizações, concebidas, aliás, fora de toda preocupação espiritual.
Mas o comunismo como filosofia, o comunismo como negação do sobrenatural, como mística de ação ameaçando os valores essenciais da Revelação cristã, como sistema dominado por um ateísmo radical, este comunismo é desconhecido da maioria, malgrado os ensinamentos e as advertências reiteradas da Igreja já desde algumas dezenas de anos.
Talvez que a passividade de sobejos cristãos em face do perigo comunista se explique pelo fato de ligarem eles mais importância ao caráter político e social do comunismo do que ao seu aspecto espiritual: o partido sobreleva à ideologia, o programa à tese, a tática ao fim. E essa atitude talvez explique também a sedução que o comunismo não cessa de exercer sobre certos espíritos, mesmo depois das repetidas condenações da Igreja. É um fato que o comunismo é mal conhecido sob o seu aspecto espiritual e religioso.
Ora, os acontecimentos sobrevindos, de 1945 aos nossos dias, nos países onde o comunismo conseguiu tomar o poder, mostram claramente que a perseguição religiosa fica sendo uma das constantes fundamentais, inexoráveis do marxismo. Jamais foram renegados os textos clássicos do comunismo sobre a edificação da sociedade socialista partindo da luta contra os “preconceitos religiosos de todo gênero”. A única novidade em relação ao passado é a organização metódica, a aplicação da dialética marxista, a implacável concatenação dos fatos, coisas estas que fazem da perseguição exercida nas “democracias populares” uma verdadeira operação científica.
Na sua conquista do poder e no exercício deste, os comunistas — sejam eslavos, latinos, bálticos ou húngaros — têm-se servido dos mesmos métodos. Pode-se com razão falar de uma “técnica do golpe de Estado” e de uma “técnica de governo” próprias a todos os regimes comunistas. O que pode ter variado — e de fato varia — é a aplicação desses métodos; a tática comunista aconselha, com efeito, servir-se deles e lhes dosar o uso em função das circunstâncias particulares da história, da mentalidade, das instituições, das tradições de cada povo. Mas, nos limites dessa “elasticidade tática”, o processo de base persiste idêntico no essencial, porque fundado na mesma doutrina do materialismo dialético, de onde com rigorosa precisão são tiradas as regras práticas de ação.
O mesmo sucede na luta contra a religião e a Igreja, tal como se pode observar desde há dez anos.
Segundo os princípios deles, a religião é combatida em nome da “ciência”, como não passando de uma velhacaria que desvia o homem do seu próprio fim, fim que é o de rematar nele a evolução da matéria; é combatida em nome do “progresso social”, visto ser o “ópio do povo” e visto as suas promessas do além manterem na sujeição os oprimidos deste mundo. Ora, sem renegarem nenhum destes princípios que lhes inspiram diretamente a sua ação sistemática contra a Igreja, sem perderem de vista o fim último dessa luta, que é a liquidação da religião ao mesmo tempo que da sociedade capitalista, da qual é ela parte integrante, os comunistas sempre têm levado e ainda levam rigorosamente em conta as circunstâncias.
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(Albert Galter, "O Livro Vermelho da Igreja Perseguida", pp 11-25, Vozes, 1958)